Nova decisão garante herança e pensão sem DNA em casos de vínculo afetivo comprovado

O conceito de família no Brasil passou por uma transformação jurídica histórica, em que o vínculo afetivo passou a ter o mesmo peso que a biologia nos tribunais. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou o entendimento de que a paternidade ou maternidade socioafetiva produz os mesmos efeitos jurídicos da filiação biológica, garantindo plenos direitos, incluindo o acesso à herança e outras questões patrimoniais.

O que muda com o reconhecimento da paternidade socioafetiva?

Esta decisão estabelece que o vínculo emocionalquando comprovado publicamente e de forma duradoura, não pode ser anulado simplesmente pela ausência de DNA. Na prática, os filhos adoptivos que não foram formalmente registados podem reivindicar direitos iguais aos dos filhos biológicos.

O tribunal entende que posse do estado do filhoagir, tratar e ser socialmente reconhecido como criança cria obrigações jurídicas irrevogáveis. Isto evita que os herdeiros biológicos excluam o seu irmão “do coração” da partilha de bens ou do recebimento de benefícios da segurança social.

Créditos: depositphotos.com/seb_ra
Estátua da Justiça – Créditos: depositphotos.com/seb_ra

Exemplo prático: como o direito sucessório se aplica na vida real

Imagine o caso de “Carlos”, que criou a enteada “Ana” desde os dois anos de idade, proporcionando apoio, carinho e educação, embora nunca a tenha adotado oficialmente no papel. Após a morte de Carlos, seus irmãos de sangue tentaram impedir que Ana recebesse parte da herança, alegando falta de registro civil.

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Com base no novo entendimento, o juiz reconheceria Ana como herdeira legítima, garantindo-lhe a parte do patrimônio e o direito à pensão por morte. A decisão valoriza a realidade vivida pela família acima da formalidade burocrática, protegendo quem construiu uma relação afetiva genuína.

Que evidências são aceitas para garantir o direito?

Como não existe teste genético para comprovar o amor e a convivência, a justiça aceita um conjunto robusto de evidências para validar o filiação socioafetiva. Fotos em festas familiares, comprovantes de pagamentos escolares, depoimentos em redes sociais e testemunhas são essenciais nesse processo.

Além disso, a dependência econômica e a apresentação social, ou seja, o falecido apresentou a pessoa como filho à sociedade, são fortes indícios para o juiz. É fundamental reunir o máximo possível de provas que demonstrem a intenção de ser pai ou mãe, conhecido legalmente como animus domini.

Créditos: depositphotos.com/AllaSerebrina
Mulher escrevendo e lendo com estátua da Justiça – Créditos: depositphotos.com/AllaSerebrina

Quais os principais efeitos jurídicos da decisão?

A igualdade total entre filhos biológicos e emocionais tem consequências imediatas para o planejamento sucessório e previdenciário das famílias brasileiras. Veja abaixo os direitos garantidos automaticamente após o reconhecimento judicial:

  • Direito à herança: O filho socioafetivo entra na partilha de bens competindo em igualdade de condições (mesma percentagem) com os filhos biológicos.
  • Pensão por Morte: É possível requerer o benefício mensal no INSS ou em regimes próprios de seguridade social, desde que comprovada dependência ou condição de minoritário na data do falecimento.
  • Mudança de nome: O reconhecimento permite a inclusão do sobrenome do pai ou da mãe socioafetivo na certidão de nascimento, sem a necessidade de retirar o nome dos pais biológicos (multiparentalidade).
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Qual o impacto nos inventários e testamentos?

Para quem deseja evitar futuras disputas judiciais, a recomendação é formalizar o relacionamento em vida, por meio de testamento ou reconhecimento voluntário em cartório. O planejamento sucessório torna-se uma ferramenta vital para garantir que os desejos do falecido sejam respeitados e que as crianças adoptadas não fiquem desamparadas.

Se o reconhecimento ocorrer somente após a morte (pós-morte), o inventário poderá ser suspenso até que a ação de investigação de paternidade socioafetiva seja concluída. Isto pode atrasar a divisão de bens durante anos, reforçando a necessidade de procurar aconselhamento jurídico especializado o mais rapidamente possível.

Se você está em situação socioafetiva de parentalidade, procure um advogado especializado em direito de família para regularizar a documentação e garantir o futuro dos seus filhos.

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